segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A Chorisia speciosa e o asteróide B 612

Se houvesse equivalente no mundo animal, a Chorisia speciosa estaria certamente algures entre o Dumbo e a Carmen Miranda. A mistura pode parecer bombástica (e é-o literalmente, uma vez que esta árvore pertence à família das Bombaceas), mas resulta evidente para quem a conheça bem. Isto não só por se tratar de uma espécie originária da América do Sul (Argentina, Paraguai e Sul do Brasil), o que pode explicar o seu lado mais sambeiro e folgazão, mas sobretudo pela combinação perfeitamente insólita entre a forma de pata de elefante do tronco e as vistosas e estridentes flores cor‑de‑rosa que recobrem a copa geralmente nos meses de Outubro e Novembro.

Para além deste óbvio pendor para uma extravagância fácil, a Chorisia speciosa parece também ter um problema de múltipla personalidade, respondendo por nomes vernáculos diversos, desde sumaúma até árvore-da-lã, passando por paina-fêmea, paineira-branca, paineira-rosa ou até barriguda (note-se que é provável que a Carmen Miranda, mesmo quando estava ainda na fase de Marco de Canaveses, pudesse não ter gostado muito deste último epíteto).

Mais grave é a circunstância de recentemente se pretender agrupar a espécie num novo género, o género Ceiba, passando esta árvore a assumir a nova designação de Ceiba speciosa. Não obstante, vamos continuar a referirmo-nos à espécie pelo nome científico tradicional. Mas não por ser esse o seu designativo mais comum, nem por não haver consenso absoluto na comunidade botânica sobre o assunto. Não, aqui não vamos aceitar a mudança de género da Chorisia, mas apenas por que nos parece ligeiramente traumático praticar uma mudança de género assim a sangue‑frio (como se não bastasse já parecer uma mescla excêntrica entre um proboscídeo e uma cantora tropical…). Se a Chorisia padece de facto do Síndrome de Benjamim (forma elaborada de denominar a transexualidade), então deve poder fazer a coisa com todas as condições. E aqui não há condições. Adiante.

A Chorisia é também muito mais do que uma árvore caprichosa, consegue ser verdadeiramente enternecedora se repararmos com atenção nos pequenos detalhes. O seu tronco pançudo encontra-se profusamente revestido por acúleos cónicos, pateticamente ameaçadores na sua impotência face às agressões imprevistas da grande cidade. Os acúleos são falsos espinhos, emergências epidérmicas duras e pontiagudas que se podem destacar com facilidade e que se encontram também nas roseiras.

Neste aspecto particular a Chorisia speciosa é um pouco como a temperamental rosa d’O Principezinho de Saint‑Exupéry (turista acidental do asteróide B 612), comovente na sua convicção de invencibilidade. De facto, tanto mais comovente quanto essa invencibilidade se mostra por demais frágil contra algo tão simples como um embondeiro ou uma ovelha (ou ainda contra uma motosserra, no caso particular da Chorisia). Como refere José Gil, no seu livro A Profundidade e a Superfície, Ensaio sobre O Principezinho de Saint-Exupéry, «o que irrita o principezinho, é a obstinação da flor em querer medir-se com tigres imaginários» (p.58). E sendo certo que num primeiro instante o irrita, é também verdade que deveria, ao invés, tê-lo enternecido (como o próprio principezinho reconhece mais tarde num momento de dolorosa saudade). A Chorisia speciosa é também isso: irritante mas enternecedora na sua audácia tão espampanante quanto deslocada.

Dito tudo isto, quem quiser conhecer melhor a Chorisia speciosa, particularmente se considerar que o tamanho importa, poderá visitar o maior exemplar existente no país no Jardim Botânico de Lisboa (e para tornar a coisa ainda mais aliciante adianta‑se que só o perímetro à volta do tronco tem mais de cinco metros!). Já aos gerontófilos interessará possivelmente mais o vetusto espécime com quase duzentos anos do Jardim da Praça da Alegria.

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